sábado, 24 de janeiro de 2009

Tai Chi Chuan

Fiquei durante algum tempo refletindo sobre os temas que se poderia escrever que envolviam o Tai Chi Chuan, assim como a maneira de interpretá-los. Na tentativa de buscar ajuda com aqueles que já haviam escrito livros, novamente deparei-me com as inúmeras ênfases e interpretações que cada autor faz sobre o tema. Podemos concordar em maior ou menor parte com cada um, assim como em nossas leituras, damos-nos conta da ênfase que colocamos em nossos estudos ou ensinamentos. Assim, resolvi fazer um "levantamento bibliográfico" (às vezes comentados) dos muitos temas que envolvem o Tai Chi Chuan. Então, iniciando nossos artigos, começaremos pela história da origem do Tai Chi Chuan.


Primeiras referências históricas
(do livro "O Livro Completo do Tai Chi Chuan", de Wong Kiew Kit)

"(...),o termo 'tai chi' significa 'o cosmo', tem sua origem no Yi Jing (I Ching), 'O Livro das Mutações', e está intimamente relacionado com a filosofia taoísta. Mas ninguém tem muita certeza a respeito da origem do Tai Chi Chuan, ainda que várias teorias tenham sido postuladas a este respeito. Alguns registros indicam que, durante a dinastia Tang (618d.C. - 906d.C.), um eremita chamado Xu Xuan Ping praticava uma arte conhecida como Os 37 Estilos do Tai Chi. Também foi chamada de Chanquan ou 'Punho Longo' e, mais tarde, de 'Rio Longo' em referência ao Yang - tzé Kiang, o rio mais extenso da China, porque sua execução deveria ser longa e contínua como um rio. Por volta da mesma época, no monte Wudang*, um sacerdote taoísta chamado Li Dao Zi praticava uma arte denominada Punho Longo Primordial, que era semelhante aos 37 Estilos do Tai Chi.(...)
A teoria mais popular sobre a origem do Tai Chi Chuan, todavia, cabe ao sacerdote taoísta Zhang San Feng,(...) que viveu por volta da dinastia Song, no século XIII. Depois de se formar no conhecido mosteiro Shaolim (...)Zhang San Feng continuou a praticar artes marciais e o desenvolvimento espiritual no Templo do Pico Purpúreo, no *monte Wudang, que é um dos mais importantes montes sagrados do taoísmo." Exemplo de Tai Chi Chuan Wudang:






(do livro "Clássicos do Tai Chi" de Waysun Liao)


"Por milhares de anos, o sistema político da China foi baseado em brutalidade e corrupção. As pessoas que se dedicavam à busca da verdade chamavam-se de taoístas ou "homens da montanha" e levavam uma vida semelhante à dos monges.(...)
Embora esses grupos não tivessem laços que os ligassem às autoridades políticas, seus estudos foram mesmo assim respeitados pelos governantes, primeiro em virtude dos conhecimentos acumulados, e depois como uma forma de religião.(...)
Cerca de 1700 anos atrás, o famoso médico chinês Hua-Tuo recomendava insistentemente os exercícios físicos e mentais como meios para a melhora da saúde. Acreditava que os seres humenos deviam exercitar-se imitando os movimentos de certos animais(...). Organizou assim as artes marciais populares num sistema marcial chamado de Jogos dos Cinco Animais, que foi a primeira arte marcial sistematizada na China.(...)
Por volta de 475 d.C., Ta-Mo (Bodhidarma) foi da Índia à China para disseminar sua doutrina religiosa e fixou residência no Templo de Shaolim, na região de Tang Fung, no norte da China.. Além da meditação e dos serviços de adoração religiosa, ele incluiu exercícios físicos na rotina diária do templo. Usou os Jogos do Cinco Animais para desenvover em seus seguidores uma disciplina mental e física equilibrada. A dedicação ao Budismo, associada à abundância de tempo reservado à prática, fez com que os Jogos do Cinco Animais se desenvolvessem e alcançassem, neste contexto, um alto grau de realização enquanto arte marcial.
Quando os seguidores de Ta-Mo espalharam-se pela China para pregar suas crenças religiosas, levaram consigo também seu conhecimento da artes marciais. O sistema desenvolvido pelos monges do Templo de Shaolim tornou-se conhecido como sistema de artes marciais de Shaolim. Dava ênfase não só ao desenvolvimento espiritual, como também ao fortalecimento do corpo e à resistência física. Foi assim que começou o desenvolvimento sistemático das artes marciais externas da China.
O aspecto de disciplina mental do sistema de Shaolim baseava-se pricipalmente na meditação budista. Pelos chineses que conheciam profundamente o Taoísmo e a sofisticada filosofia do Ying e Yang,ele era,e ainda é, considerada um simples sistema marcial físico.
*Em 1200 d.C., o monge taoísta Chang San Feng fundou um templo na montanha de Wudang apar a prática do taoísmo, em vista do desenvolvimento das potencialidades mais elevadas da vida humana. O mestre Chang propunha a harmonia do Ying e do Yang como meio para o progresso das capacidades mentais e físicas; ensinava também uma meditação natural e uma técnica de movimentos naturais do corpo gerados por uma energia interna que se desenvolvia depois de certo grau de realização da prática.
Como o sistema de Shaolim já estava espalhado pela China havia séculos, a idéia da adaptar a doutrina taoísta á vida cotidiana em vez de transformá-la numa forma de culto religioso foi prontamente aceita pela sociedade chinesa.(...)
Certos nomes de família passarm aser associados aos diversos estilos da Tai Chi que eram transmitidos de geração em geração, sempre de forma oral, de mestre a discípulo - como por ex., o estilo Chen, o estilo Yang e o estilo Wu. Muitos destes familiares ainda existem hoje.(...)
Cerca de 350 anos atrás, em 1644 d. C., os manchus invadiram o império chinês e fundaram a disnastia Ching. Embora a dinastia tenha sido fundada pela força e tivesse como único objetivo o bem dos governantes, os manchus logo foram atraídos pela cultura chinesa. Adotaram o estilo de vida chinês, reconstruíram uma ordem social mais ou menos pacífica e deram início a um governo corrupto que haveria de durar quase três séculos.
No começo da dinastia, os episódios de hostilidade e conflito entre os chineses e seus soberanos manchus eram violentos e muitas vezes brutais. Muito embora os manchus procurassem aprender a cultura chinesa e adaptar-se aos modos chineses, os chineses de nascença nunca deixaram de vê-los como bárbaros. O sentimento de responsabilidade do povo em relação à nação diminuiu; a resistência passiva e a recusa em cooperar com os 'estrangeiros' resultou na estagnação econômica do país.
Assim que os soberanos Ching ouviram falar da existência da sofisticada arte do Tai Chi, chamaram o mais famoso mestre da época, Yang Lu-chang (1799 -1872), fundador do estilo Yang ou sistema familiar Yang, para servir à corte imperial. Como não queria ensinar os manchus, mestre Yang modificou deliberadamente as formas meditativas do Tai Chi, convertendo-as numa espécie de exercício exterior de movimentos lentos e deixando completamente de lado a filosofia interior e a disciplina mental que constituem a chave do Tai Chi.
Mestre Yang sabia que, se a família real descobrisse o quanto não queria ensiná-los e quanto havia modificado as formas, o imperador, para vingar-se e aplacar sua própria cólera, mataria não só a ele, Yang, como a toda a sua família.. Como mestre yang chegou à conclusão de que não poderia confiar em ninguém, exceto nos próprios filhos, foi só a eles, e a ninguém mais, que ensinou a verdadeira arte do Tai Chi. Dessa maneira, evitou que qualquer outra pessoa se envolvesse na sua decisão pessoal de enganar os soberanos.
Daquela época em diante, os estilos familiares de Tai Chi tornaram-se menos públicos, na medida em que os mestres só tranmitiam a arte a seus próprios parentes. Dizia-se que alguns mestres não ousavem sequer ensinar a arte às próprias filhas: quando elas se casassem, o genro poderia ser um simpatizante da família real ou alguém que o mestre não considerasse apto a aprender a arte.
Enquanto o estilo familiar (nota - ou tradicional) diminuía, o estilo de exercício (nota - ou imperial) era praticado e fomentado pelos membros da família imperial. Logo transformou-se na principal ocupação de lazere das famílias nobres e ricas em toda a China, e assim permaneceu até o fim da dinastia Ching. Exemplo de Tai Chi Imperial:





Quando a revolução de 1900-1910 finalmente derrubou os governantes corruptos, as famílias nobres, privadas de seu poder, espalharam-se pelo país. O Tai Chi, como seria de se esperar, espalhou-se junto com elas. Os praticantes reivindicavam a autenticidade de sua arte, afirmando que ela lhes fora ensinada pelos mestres da família Yang, ou de outras famílias do Tai Chi; e o público, naturalmente, aceitava essas alegações." Exemplo de Tai Chi Chuan Yang, pelo mestre Yang Jun:





Observei que, a partir de 1900 torna-se "nublada" a história do Tai Chi Chuan em consonância com a história de China, e de uma forma "misteriosa", diversas famílias tradicionais, em algum momento da história, mudam-se para o ocidente. Tendo pesquisado a história das famílias, não fica claro em que momento esta mudança acontece, porque as famílias ocupam-se das histórias pessoais de cada mestre. Pesquisando, então, sobre a história da China, observei que entre 1898 e 1901 acontece a "Revolta dos Boxers".
O texto a seguir é extraído do livro "China - uma nova história" de John King Fairbank e Merle Goldman.


"Em Shandong, a noroeste da China, na planície aluviau do rio Amarelo, a população bastante densa emprobecera de tal forma que poucas pessoas da pequena nobreza viviam nas aldeias, e o banditismo transformara-se em uma ocupação sazonal, que inspirava rixas entre elas. O governo Quing e a elite rural estavam perdendo o controle da situação. Durante a década de 1890, missionários alemães agressivos haviam atraído convertidos ao catolicismo para apoiá-los em ações judiciais contra os não-cristãos. Depois de capturar Shandong como sua esfera de influência, em 1898, a arrogância alemã aumentou o sentimento anticristão que se acumulara desde que as missões cristãs se difundiram no interior, enquanto as nações européias e o Japão humilharam repetidamente o governo chinês. As manifestações antimissionárias levaram os extrangeiros a exigir penalidades tão onerosas que os Qing pediram aos magistrados para evitar o antagonismo entre os missionários e seus convertidos. Neste contexto, os camponeses de Shandong defendiam seus interesses por meio de sociedades secretas. No sudoeste de Shandong, por exemplo, a Sociedade da Grande Espada tornou-se uma força na sopressão de bandidos.Em 1898, uma enchente desastrosa do rio Amarelo, seguida de uma seca prolongada, colocou os aldeões em uma situação terrível. O norte da China tornou-se um estopim político.
O estudo magistral de Joseph Esherick sobre a origem dos boxers aponta para a combinação, no noroeste de Shandong, de duas tradições dos camponeses - a técnica da artes marciais ou 'pugilismo' [mostrada em óperas e contos e, hoje, em filmes de combate de gongfu, e a prática da possessão do espírito ou xamanismo].(...)







Os pugilistas do Espírito, que mais tarde adotaram o nome de Pugilistas Unidos na Integridade, reuniram estes dois elementos. Após rituais apropriados, os boxers entravam em transe, espumavam pela boca e se levantavam preparados para o combate, pois agora estavam invulneráveis a espadas e balas. Qualquer pessoa poderia ficar possuída e , então, neste momento se tornaria um líder. Não era necessária qualquer organização hierárquica. O objetivo era o simples slogam: 'Apoio à disnastia Qing, destruição do extrangeiro'. Uma vez deflagrado nas circunstãcias favoráveis, o movimento dos boxers espalhou-se no norte da China como um incêndio. Os prícipes manchus e até a imperatriz regente sentiram por algum tempo que ouviam a voz do povo comum, árbitro final da política chinesa. Eles se dispuseram a cooperar com o movimento para livrarem-se do imperialismo estrangeiro.
Na sequencia dos eventos, cada lado provocava o outro. Guardas das delegações, na primavera de 1900, atiraram nos boxers para intimidá-los. Nos dias 13 e 14 de junho, os boxers invadiram Beijing e Tianjin matando cristão e saqueando. Em 10 de junho, 2100 tropas estrangeiras começaram em Tianjin a defender as delegações de Beijing, mas não foram adiante. Em 17 de junho, uma frota estrangeira atacou os fortes costeiros fora de Tiajin. Em 21 de junho, a imperatriz e o grupo dominante na corte declararam, formalmente, guerra a todas estas potências.(...)
A revolta dos boxers, no longo e quente verão de 1900, foi um dos mais conhecidos eventos do séc. XIX porque muitos diplomatas, missionários e jornalistas foram sitiados pela luta quase incessante de oito semanas (29 de junho a 14 de agosto) no local da delegação - cerca de 475 civis estrangeiros, 450 tropas de 8 nações, cerca de tres mil chineses cristãos, além de 150 pôneis de corrida que forneciam carne fresca. Um exército internacional os resgatou, não sem disputa, após rumores de que todos tinham sido mortos. A imperatriz regente e o imperador partiram para Xi'an de carroça. As forças aliadas saquearam totalmente Beijing. O kaiser Guilherme II enviou um marechal - de - campo que aterrorizou as cidades vizinhas, onde muitos milhares de chineses cristãos haviam sido assassinados; 250 estrangeiros, sobretudo missionários, foram mortos no norte da China. Havia vingança no ar.(...)
O protocolo boxer, assinado em setembro de 1901, pelo príncipe mais graduado manchu e Li Hongzhang com onze forças estrangeiras foi, em especial, punitivo: dez altos funcionários foram executados e outros cem, punidos; os exames forma suspensos em 45 cidades, a região das delegações em Beijing foi ampliada, fortificada e guarnecida, assim como a ferrovia, e uns 25 fortes Quing foram destruídos. A indenização foi cerca de 33 milhões de dólares, a serem pagos em quarenta anos, com juros que mais do que dobravam essa quantia.(...)
Afirmar, justificadamente, que a tragetória decadente dos Qing foi detida pela restauração dos anos 1860 é, sem dúvida, uma constatação de que os dias da dinastia estavam contados. A conveniência da restauração evidenciava-se na aceitação pelo regime Qing da aliança informal com britânicos e franceses depois da humilhante invasão de Beijing e do incêndio do Palácio de Verão em 1860. O longo processo de guerra e negociação, durante os anos 1850 e 1860, entre a China e as potências ocidentais fora marcado por uma presteza geral da China para lutar em defesa da lei e uma prontidão manchu para pacificar o invasor no interesse em preservar a dinastia. A pacificação obtida pelo prícipe Gong e seus seguidores, inclusive a jovem imperatriz regente, foi uma mudança muito oportuna e propiciou mais uma geração à dinastia. Ainda assim, suas implicações práticas fizeram dos Qing um parceiro menor, de certo modo, na co-dominação britânica na costa da China."

Em "História da China", compilado por Li Ming e Xu Guang;

"Yihetuan começou por ser uma organização secreta fundada por camponeses de Shandong e Zhili (Hebei) para lutar contra o poder dos Qing e que se dizia um movimento religioso. recorrendo às artes marciais e ao treino físico, organizaram as massas para a luta armada contra os reaccionários. na medida em que os imperialistas intensificavam agora a sua agressão contra a China, a luta dos Yihetuan passou então a dirigir-se contra eles. Em 1899 este movimento abandonou a clandestinidade. Os seus aderentes queimaram igrejas e expulsaram os missionários e castigaram com severidade os funcionários corruptos e os déspotas locais. Por várias vezes venceram os exércitos Qing quando estes eram enviados para lhes dar combate. A sua força estava a aumentar muito e o governo Qing enviou então Yuan Shikai para Shandong a fim de os eliminar. Em 1900, as forças principais de Yihetuan deslocaram-se para Zhili onde se juntaram aos grupos dessa região e daí marcharam para Tianjin e Beijing. No verão deste ano, vieram a conseguir o controle de Beijing, capital do país. Entretanto, o movimento já tinha se propagado para Shanxi, Henan, Mongólia Interior e nordeste da China assim como para o sul. Esta luta anti-imperialista depressa adquiriu uma dimensão de luta nacional.
Como os Yihetuan davam luta sem trégua aos 8 países imperialistas - Rússia, Inglaterra, Alemanha, França, Estados Unidos, Japão, Itália e Áustria - estes fizeram então uma aliança para desencadear uma guerra de agressão contra a China. No dia 10 de junho de 1900, 2 mil homens das forças armadas às ordens do almirante inglês E.H. Seymour, desembarcaram em Dakukou e dirigiram-se para Tianjin e Beijing, tendo mais tarde ido para aí ainda mais tropas. O heróico Yihetuan deu imediata réplica aos invasores. Mas, atacados tanto pelos reaccionários seus compatriotas como por forças estrangeiras, os Yihetuan sofreram pesadas baixas. No dia 14 de julho, as forças aliadas ocuparam Tianjin. A 2 de agosto, uma força constituída por 20 mil homens partiu de Tianjin com o objetivo de atacar beijing, que conseguiram vir a ocupar no dia 14 deste mês. Durante 3 dias pilharam toda a cidade. Todos os tesouros, documentos e relíquias históricas que se encontravam no Palácio Imperial e no Palácio de Verão forma roubados ou destruídos. Além disso, raptaram mulheres e puseram toda a cidade a ferro e fogo.
Alarmado com o rápido crescimento do movimento da Yihetuan, o governo Qing pensou em poder vir a dominá-lo, assumindo sua chefia, aproveitando-se para issso da política anti-missionária por eles seguida e para tal começou por o legalizar. Mas quando as forças aliadas entraram em Beijing, o governo Qing, à cabeça do qual estava a imperatriz-mãe Cixi, fugiu para Xi'an e operou então um 'volte-face' na sua política, declarando que os partidários de Yihetuan eram 'bandidos'. Ale´m disso, exprimiu ainda sua amizade para com os invasores estrangeiros e pediu-lhes que dessem cabo dos 'bandidos'. Atacado tanto pelo governo Qing como pelas forças aliadas, o movimento de Yihetuan veio a sucumbir. Mas, apesar disso, ele veio a mostrar claramente a enorme força das massas camponesas (nota - e, diga-se de passagem, das 'famílias' de artes marciais) na sua luta contra o imperialismo e desferiu duros golpes na política imperialista de tentar dividir a China pelos países invasores. Lutou ainda contra o poder feudal do governo Qing e apressou a rápida queda deste regime corrupto."


Quem deseja ter uma idéia mais ampla deste período político e histórico da China, recomendo o filme de Bertolucci, o"O Último Imperador":



sexta-feira, 4 de abril de 2008

O Tigre e o Dragão (Parte 3)

Quando se introduz a personagem Jade Fox e sua dinâmica, precisa-se entender que cada personagem possui sua própria característica, suas razões e conseqüências.

Quando se analisa as relações, a partir da introdução da personagem, observa-se o seguinte:

1) Jade Fox possui relação com Jen e Li Mu Bai;
2) Li Mu Bai possui relação com Jen, Yu Shu Lien e Jade Fox;
3) Yu Shu Lien possui relação com Li Mu Bai e Jen;
4) Lo possui relação com Jen;

Ou seja, Jen passa a ser a personagem central da história (aquela que possui relação com todos os outros).
"Tigre Agachado, Dragão Escondido", título da narrativa em inglês, agora passa a fazer sentido, quando a ação "agachado" ou "escondido" pode se referir a uma reação ao medo através de uma preparação para um ataque ou fuga. Aqui nos defrontamos com as reações instintivas diante dos sentimentos.

Jade Fox é uma personagem quase tão complexa quanto as demais, porém reflete características femininas em seus aspectos mais sombrios. Une-se maritalmente à um mestre, na expectativa de aprender a arte, em vez de procurá-lo como aluna (daí talvez a dificuldade de Li Mu Bai, além das imposições sociais, de unir-se a Yu Shu Lien), ressente-se da negativa do esposo e o envenena, matando-o.
Jade Fox é uma personagem que costuma reagir às situações que a vida apresenta propondo um "espelhamento" (o que geralmente é o papel realizado pelas personagens que representam oposições em contos orientais) ao que ela sente.
Jade Fox sente-se aviltada em sua feminilidade pela recusa do esposo em repartir seu poder, acusa o templo Wudan de ser um prostíbulo, onde, provavelmente, se sente abusada em sua intimidade, então reage à forma feminina; devo lembrar que as mulheres não dispõem de força física, como os homens, então Jade Fox utiliza-se desta mesma intimidade para introduzir veneno em sua comida.
O veneno aqui poderia ter um significado muito amplo.As pessoas contaminadas pelo veneno (que pode ser através da comida, ou contato, ou relação com alguma coisa) podem passar a perceber a realidade de outra forma que não seja a sua, usualmente. No caso desta relação, a conseqüência é fatal.
Jade Fox, muito habilmente, utiliza-se do desejo ou dependência dos outros para manipular as situações a fim de alcançar seus objetivos: utiliza-se do desejo de sua discípula de ser livre para obter refúgio em sua casa, assim como ter acesso aos livros de seu falecido esposo.
Utiliza-se do desejo de vingança de um policial para matá-lo, e retorna, ao final do filme, utilizando-se do desejo de Li Mu Bai em provar para Jen do seu valor como mestre para cercá-lo em uma armadilha.

Percebo que de alguma forma, pulamos repentinamente para a possibilidade de chegarmos às conclusões que a história nos traz.
Analisando os desejos de cada personagem, concluímos:

1) o desejo de Li Mu Bai em ter um discípulo lhe traz uma armadilha.
Nesta, lhe é inoculado um veneno. O que este veneno faz?
O veneno inverte o fluxo sanguíneo. Na vida, AS COISAS POSSUEM UM FLUXO NATURAL, e, quando é o mestre quem quer ensinar ao aluno, este fluxo é invertido, o que irá retirar todo o valor que este mestre poderá ter. Isto "mata" o valor do mestre, e retira-lhe a "vida".Na história, é Jen quem conhece o antídoto para o veneno, mas este é demorado para confeccionar. O tempo que este antídoto requer não é curto o suficiente para salvar a vida de Li Mu Bai. Finalmente Jen poderá reconhecer o valor de um mestre, mas "é tarde demais".Este reconhecimento surge só depois que sua antiga mestra confessa o desejo de matá-la, por sua traição.

2) O desejo de Jade Fox em obter o conhecimento a qualquer preço, sem ter a humildade de colocar-se como aluna irá gerar uma recusa constante daqueles que detém o conhecimento e então depois virá o ressentimento que será sempre como um "veneno" em seu sangue, que destrói a relação com todos. Por outro lado, na sua relação com seus alunos, sua atitude gera onipotência por parte deles, falta de limites exagerada, uma impossibilidade de reconhecimento de relações hierárquicas. Jade Fox falece, atingida pela espada (arma mais famosa de Wudam, como um lembrete da importância do lugar o qual ela tanto desprezava), atirada sobre vasos de barro que "quebram" como também estilhaçaram-se suas expectativas com relação à sua mais próxima discípula.

3) Lo deseja "retornar para o deserto" que, provavelmente, é o que acontecerá.

4) Jen deseja ser livre. Seus pais a haviam prometido em casamento à um rico comerciante, ela foge do casamento porque imagina que é na vida dos "jiang hu" que poderá ser livre. No entanto, sua mestra deseja que ela lhe obedeça, Li Mu Bai deseja ensiná-la, ser um "jiang hu" possui suas obrigações e regras de comportamento, e até mesmo Lo quer que ela retorne ao deserto; nota que as relações estão cheias de desejos, então, "voa" sobre Wudan, na esperança de que se cumpra o seu desejo.

5) E Yu Shu Lien não possui desejos? Como qualquer mortal que possua um ego, sim. Mas estes não a possuem, ela continua ensinando em sua escola, conduzindo os negócios de seu falecido pai..., enfim, apesar de seus desejos, continua vivendo sua vida.

Noto, então que em toda a narrativa existem inúmeros detalhes, mas a história possui algumas conclusões importantes:

A) É através dos desejos que se estabelecem as possibilidades de frustrações e as fragilidades de cada indivíduo.

B) As relações contém posições hierárquicas que determinam o fluxo dos acontecimentos, estas posições e atitudes devem ser consideradas a fim de evitar resultados desagradáveis, ou por vezes, desastrosos.

Uma vez que entendemos estes ciclos e posições, os conflitos e sofrimentos tornam-se mais amenos. Nossa compreensão da vida torna-se mais ampla.

Através da tendência à extroversão da energia, típica do comportamento ocidental, que temos a propensão da responsabilizar os outros pelas conseqüências de nossas próprias escolhas. Daí a máxima proferida por Freud, que diz que precisamos nos dar conta da mesma coisa muitas vezes; o que significa que há uma possibilidade de que passemos pelas mesmas experiências e mesmas resultados sem atentar para o fato de que estamos sendo responsáveis pela sucessão de resultados.

É quando uma pessoa possui a liberdade para ser o que é e fazer o que quer que ela têm a possibilidade de defrontar-se com as conseqüências geradas pelas suas escolhas; e mesmo assim, isto não representa uma garantia de que ela aprenda alguma coisa a seu próprio respeito.

Por isso é que diversas culturas atentam para o exemplo das pessoas idosas, elas são o resultado vivo de suas próprias escolhas.

O que acho particularmente representativo na Wushia "O Tigre e o Dragão" é que, diferentemente da cultura ocidental, a história nos mostra causa, desenvolvimento e conseqüência gerada. Não é uma questão de bem ou mal, mas uma questão de escolhas. Todos os personagens possuem sua própria lógica.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Aqui se pode observar alguns detalhes do que escrevi anteriormente:




terça-feira, 25 de março de 2008

O Tigre e o Dragão (Parte 2)

Primeiramente, irei comentar as relações de casal entre os dois principais casais do filme.

Acho interessante comentar que até agora só encontrei críticas ao filme que atentam ao fato de que a relação entre Li Mu Bai e Yu Shu Lien não possui uma manifestação sexual, só que esta é colocada como uma "falta de realização".

Eu discordo desta maneira de ver.
Acho que Li Mu Bai e Yu Shu Lien realizam a relação de maneira bastante madura, levando em consideração os limites impostos socialmente.
Em uma época onde barreiras ou convenções sociais são constantemente ignorados em nome "de uma grande paixão" ou de "uma atração irresistível", realmente deve ser muito difícil aceitar que as pessoas possam "viver seus amores" de outras formas que não incluam a realização sexual.Neste sentido, há um momento bastante marcante no filme, onde o casal está tomando chá e Li Mu Bai segura a mão de Yu Shu Lien e diz que as realizações físicas são ilusórias, mas é ao lado dela que ele quer viver e sente-se em paz. Nota-se que cada indivíduo possui sua próprias realizações, sentem-se seguros e não há vínculos de dependência.

Esta relação de casal é compensatória à relação do jovem casal; onde nota-se claramente, desde o primeiro momento, a necessidade de "disfarçar" ou "esconder" seus sentimentos, como se a possibilidade de revelá-los troxesse à tona uma grande fragilidade e dependência, onde o outro certamente manipularia, então, estabelece-se um jogo de "quero não-quero".Jen e Lo amam-se e querem permanecer unidos, mas aparentemente não podem falar sobre isto, preferem representar um papel, como se a relação lhes fosse indiferente.

Nas cenas finais do filme, esta diferença aparece de forma forte.
E para compreendermos o que diz Li Mu Bai para Yu Shu Lien em seus momentos finais de vida, teremos que compreender também a perspctiva religiosa oriental (clássica).Espero que os estudiosos perdoem a maneira superficial como tratarei o tema.
Não importando o nome que é dado a esta busca (Deus, Alá ou terminações "ismo") a grande maioria do movimento religioso ocidental possui uma orientação extrovertida, como abusca de uma instância metafísica que possui uma existência "fora de nós", seja que nome possua esta instância (espíritos, o amor, Deus, bens materiais - como representantes de um bem-estar completo - ou movimentos políticos, ideais, a aprovação e reconhecimento, etc, etc). Enquanto isto, a existência e realidades internas esvaziam-se de significados (sonhos, fantasias e imaginações), e forma-se um grande "vazio interno" povoado de fantasmas ou como é chamado popularmente, de "trabalho do diabo", espaço propício para para todo o tipo de doença psíquica, ou, em sua forma mais aceitável, o consumismo.
Já o que as religiões orientais clássicas possuem em comum é uma orientação introvertida da energia psíquica (conpensatória à forma ocidental), onde o equilíbrio, o bem-estar é procurado dentro do indivíduo. É valorizada a relação com a imaginação, os sonhos a meditação, em detrimento à relação com os objetos externos.
Wudan é um templo taoísta, enquanto Shaolim representaria o budismo.
Devo confessar que desconheço publicações mais extensas a respeito do taoísmo, mas, do pouco que conheço o budismo ( e devo lembrar que são mais de 400 correntes diferentes), a vida e a morte representam "facetas" da mesma "roda",mas, diferentemente dos ocidentais, os orientais não buscam o renascimento ou reencarnação, por entenderem que a vida carrega consigo, naturalmente a geração de um ego carregado de desejos e paixões ilusórias; logo, o renascimento seria um "convite" a uma série de sofrimentos. Não deve ser desejada a morte também; mas a vida deve ser vista como uma grande preparação onde a morte representa seu ponto culminante. A pessoa deve tentar se manter o mais consciente e concentrada possível, a fim de reconhecer as ilusões que sua alma formará e assim, obter a iluminação.

Então, em nossa história, Li Mu Bai avisa a Yu Shu Lien que só possui duas respirações, ao que ela pede-lhe que as poupe, a fim de obter mais concentração. Neste momento ele diz que prefere ser um fantasma a rodeá-la do que permanecer no Nirvana sem ela.

Diferente de Jen e Lo, que depois disto, encontram-se no templo Wudam.
Jen pergunta o que Lo deseja, ao que ele responde: "Voltar para o deserto!". Talvez a vida ao lado de Jen seja importante, mas o primordial para Lo é o lugar onde ele vive, e não suas relações.

Terminado este comentário sobre as particularidades de cada casal, retorno ao que foi comentado sobre o símbolo do número 4, em meu último artigo. Os casais representam uma oposição complementar, onde, se houvesse uma abertura para que cada indivíduo reconhecesse seus aspectos sombrios, haveria uma ampla integração.

Agora é o momento de introduzir o elemento desorganizador, a personagem Jade Fox.

Segundo o "Dicionário de Símbolos" (mesmos autores já citados), "Na China,(...) 5 é o número do Centro. Encontra-se na casa central de Lochu. O caracter wu (cinco) primitivo é, precisamente, a cruz dos quatro elementos, aos quais se junta o centro. Numa fase ulterior, dois traços paralelos aí se unem: o Céu e a Terra entre os quais o yin e o yang produzem os cinco agentes. Também os antigos autores asseguram que debaixo do céu, as leis universais são em número de cinco. Há cinco cores, cinco sabores, cinco tons, cinco metais, cinco vísceras, cinco planetas, cinco orientes, cinco regiões do espaço e, naturalmente, cinco sentidos. Cinco é o número da Terra. É a soma das quatro regiões cardeais e do centro, o universo manifestado. Mas é também a soma de dois e de três, que são a Terra e o Céu na sua natureza própria : conjunção, casamento do yin e do yang, do T'ien e do Ti. É também o número fundamental das sociedades secretas. É essa união que as cinco cores do arco-íris simbolizam. Cinco é, ainda, o número do coração."

quarta-feira, 19 de março de 2008

O Tigre e o Dragão (Parte 1)

Neste comentário sobre o filme "O Tigre e o Dragão", vou abster-me de contar a história, vou deter-me apenas sobre os personagens e suas relações.

A narrativa da história possui uma característica de Wushia, que poderiam ser interpretadas como "novelas chinesas", ou narrativas "cavalheirescas" dos antigos lutadores, exaltando sua virtudes. Então, ao interpretar a história, devemos levar em conta estas características.

O primeiro ponto que considero relevante se refere ao fato de que a trama se desenvolve em torno de quatro personagens, divididos em dois casais.
Segundo o "Dicionáro de Símbolos" de J. Chevalier e A. Gheerbrant, "desde as épocas vizinhas da pré-história, o 4 foi utilizado para significar o sólido, o tangível, o sensível. Sua relação com a cruz fazia dele um símbolo comparável de plenitude, de universalidade, um símbolo totalizador."

Das relações de casal e sua diferenças, tratarei ao final do artigo.
Primeiramente, tratarei das carcterísticas principais destas 4 personagens.

Li Mu Bai é discípulo de um mestre do templo Wudam, famoso por suas técnicas de espada. Seu mestre havia sido morto por Jade Fox, sua esposa, que desejava aprender, mas o conhecimento lhe fora negado; ela então, envenena seu esposo e lhe rouba suas "anotações".
Como em toda a Wushia, Li Mu Bai deverá vingar seu antigo mestre, mas depara-se com um conflito, está envelhecendo e deseja deixar a espada e viver em paz, ao lado da mulher que ama, mas, ao mesmo tempo, não possui descendentes em sua arte e este desejo lhe faz incorrer em erro.

Jen è uma personagem interessante: culta, filha de um governador, prometida em um casamento político, deseja ser livre, viver a vida dos lutadores, mas sem compromissos ou barreiras. Tem como governanta Jade Fox, que após matar o esposo se refugia na casa do governador. Juntas, procuram decifrar as "anotações" do antigo mestre, mas há uma diferença forte que afasta as duas mulheres.
A escrita "chinesa" é composta de símbolos e pode conter determinada sutileza em seus traços caso seja da capacidade de seu autor, assim como também da capacidade de seu leitor; assim, o que acontece entre "mestra" (Jade Fox) e discípula (Jen) é que a segunda consegue "ler" detalhes incutidos nos antigos alfarrábios que sua mestra nem sequer sonha.
Este pequeno detalhe causa-lhe uma empáfia ou orgulho que será o agente "detonador" de todas as situações "problema" na narrativa. Possui um treinamento, mas está incompleto, não aprende por uma relação, o que lhe gera desconfiança e descontrole, ao mesmo tempo em que possui um conhecimento parcial e tem nas mãos uma arma poderosa, o que a deixa invencível perante outros.

Sobre a espada, já havia comentado sobre a notoriedade da escola Wudam sobre esta técnica. cabe destacar que os chineses atribuem um "alma" própria às armas, sendo vedado o toque à sua lâmina, justamente para não "macular" tal "espírito".

A personagem Yu Shu Lien considero a mais difícil de ser comentada porque encarna um ideal dos praticantes de artes marciais: equilibrada, procura resolver as questões de forma diplomática sem mexer nas estruturas políticas e nos interesses individuais.
Neste sentido, uma das cenas chama a atenção; por ser uma personagem tão comprometida com determinados ideais, isto acaba gerando uma oposição natural com Jen, que é demonstrada pela cena que postei aqui.
Existem várias oposições entre as duas personagens, mas a gota d'água parece ser a insistência de Jen em interpretar as situações como "armadilhas" onde outros desejam comprometê-la.
A superioridade técnica de Yu Shu Lien é evidente no combate, ele inicia-se com uma batida de dao (facão), o que é uma marca típica de uma "lição" que um mestre dá a um aluno.
Devo lembrar que este combate é mais um capítulo de nossa Wushia, pois combates de armas não devem ultrapassar 15 segundos.
"Acerta-se a mão do oponente e o combate termina", explicou-me um amigo, professor do estilo Shaolim do Norte, em contato com seu mestre.
Mas o filme pretende fazer uma demonstração de armas e técnicas e, como coloquei anteriormente, deixar bem marcada a superioridade técnica de Yu Shu Lien sobre sua oponente, pois maneja várias armas: dao, futao changao, cheung, dui quan, Jor Yow Gim (respectivamente: facão, facão duplo, garra de tigre, lança, pequeno bastão e espada longa), Jen consegue uma aparente vitória atravéz de um "rompimento de regras", quando Yu Shu Lien já havia demonstrado sua vitória. Mais uma vez, neste momento, Jen demonstra o comportamento que lhe é característico na história; o rompimento de acordos ou a fuga quando é confrontada.

Lo é um habitante do deserto: órfão, bom vivant, ladrão, não consegue expressar-se adequadamente quando o assunto trata de sentimentos (pois o mesmo vive a aridez do deserto!); então, "seduz" seu objeto de desejo roubando-lhe um pente (!), Jen, também infantil sentimentalmente o persegue durante um dia inteiro: "devolva-me o meu pente"(!). Depois de muitos socos, chutes, fugas e facadas, finalmente o jovem casal consuma sua união.Lo deixa que seu objeto de desejo vá embora, a fim de contrair as núpcias as quais era comprometida, para depois, no dia do casamento, arrepender-se (?) e, de forma dramática, pública e impotente clamar pelo retorno de seu amor.

O Tigre e o Dragão

Farei o comentário em várias partes, visto que o filme, as relações e a trama é complexa.

Iniciarei pela ficha técnica, assim como o comentário de outros críticos.

Ficha Técnica
Título Original: Wo hu zang long
Gênero: Ação
Tempo de Duração: 120 minutos
Ano de Lançamento (Taiwan): 2000
Site Oficial: www.crouchingtiger.com
Estúdio: Columbia Pictures Film Production Asia / Sony Pictures Classics / Asia Union Film & Entertainment Ltd. / China Film Co-Production Corporation / Edko Films / Good Machine / United China Vision / Zoom Hunt International Productions Company, Ltd.
Distribuição: Sony Pictures Classics
Direção: Ang Lee
Roteiro: Hui-Ling Wang, James Schamus e Juo Jung Tsai, baseado em livro de Du Lu Wang
Produção: Li-Kong Hsu, William Kong e Ang Lee
Música: Tan Dun
Direção de Fotografia: Peter Pau
Desenho de Produção: Timmy Yip
Figurino: Timmy Yip
Edição: Tim Squyres
Efeitos Especiais: Blue Sky Studios / MVFX


Elenco
Chow Yun-Fat (Li Mu Bai)
Michelle Yeoh (Yu Shu Lien)
Zhang Ziyi (Jen)
Chang Chen (Lo)
Lung Sihung (Sir Te)
Cheng Pei Pei (Jade Fox)
Fazeng Li (Governador Yu)
Gao Zian (Bo)
Hai Yan (Madame Yu)
Wang Deming (Tsai)
Li Li (May)


O Tigre e o Dragão é a tradução que recebeu em português o título de uma novela chinesa de artes marciais ("wuxia") do escritor chinês Wang Du Lu. Em inglês seu título é Crouching Tiger, Hidden Dragon (Chinês tradicional: 臥虎藏龍) (Chinês simplificado: 卧虎藏龙) (pinyin: Wò Hǔ Cáng Lóng).
A novela inspirou a criação de um filme dirigido por Ang Lee


Com base em um romance épico de cinco volumes do escritor Wang Du Lu, o filme, falado em mandarim, retrata a China no início do século XIX, através da disputa de dois casais de guerreiros por uma espada lendária, roubada após o mestre de artes marciais Li Um Bai decidir se afastar das lutas e combates. A suspeita do furto recai sobre a guerreira bruxa Jade Fox, que no passado assassinou o mestre de Li Um Bai.
O filme se destaca pela bela mescla entre romance e artes marciais, onde a principal atração é representada por interessantes cenas de lutas que superam a lei da gravidade. A técnica para tais efeitos utilizou cordas (retiradas digitalmente das cenas) que, movimentadas por um grande guindaste, suspendiam os atores numa velocidade impressionante, fornecendo uma plástica singular, através de movimentos com muita leveza para os embates.
Outro ponto forte do filme é a fotografia, com belíssimas tomadas de regiões desérticas da China.

O "KUNG-FU" AO LONGO DA HISTÓRIA

A época retratada pelo filme (início do século XIX), é marcada pela Dinastia Qing (1644 -1911), responsável pelo início da decadência do kung-fu no Império Chinês sob domínio manchu.
A prática do kung-fu na China, iniciou-se no século XI a. C. com a Dinastia Zhou, tornando-se posteriormente uma exigência para formação do exército. Essa arte marcial ganhou impulso entre os séculos VII e IX com a Dinastia Tang, onde todos os oficiais e soldados deveriam passar por testes antes de serem promovidos. Ao longo da Dinastia Ming (1368-1644), o kung-fu ainda prosperou, entrando em decadência na Dinastia Qing (1644-1911), quando foi proibido por todos imperadores.
Restabelecido em 1912 após a proclamação da República, o kung-fu foi preterido com a ascensão dos comunistas em 1949, quando muitos mestres por motivos políticos, emigraram para Taiwan e para Hong-Kong.


http://www.adorocinema.com/filmes/tigre-e-dragao/tigre-e-dragao.htm

Ainda em:

www.cinedie.com/images/cthd.jpg


A expressão chinesa que dá nome ao filme sugere cautela perante perigos dissimulados ou pessoas que podem não ser o que parecem. Mas Lee joga com outros conceitos, especialmente o de desejo reprimido. Pelos próprios (Shu Lien e Mu Bai) ou pelos valores da sociedade e da família (Jen). Este desejo de liberdade é personificado pela personagem de Jen, cujo nome chinês é Yu Jiaolong (long = dragão), não se encontrando nenhuma justificação óbvia para a “adaptação” na legendagem (que, obviamente, vem da versão inglesa). Ela quer ser livre para amar quem quiser (Lo), mas também para fazer o que bem entender, sem respeito pelas normas de conduta do mundo a que quer pertencer, sem dar “face” a opositores ou àqueles que com ela se preocupam. Para ela, o caminho da liberdade passa pela ruptura com a família e com a sociedade aristocrática a que pertence, e pela entrada no “jiang hu”. Ironicamente, Mu Bai e Shu Lien – os quais perseguem o “dragão” –, pertencem a esse mundo, mas isso não os torna mais livres, pois permanecem constritos por convenções que os forçam a não resolver a longa repressão de sentimentos
Lo é uma personagem algo secundarizada, apesar de protagonizar um longo segmento em flashback, talvez por não intervir em nenhuma das memoráveis cenas de acção. Uma vez mais, o seu nome chinês corporiza um segundo elemento, contraposto e complementar do primeiro: Lo Xiaohu (hu = tigre). Esse momento narrativo foi uma decisão do realizador que muitos não apreciaram. Mas esses 20 minutos no deserto, adicionados aos 15 iniciais, destinados a introduzir o público ocidental à sociedade chinesa da Dinastia Qing, constituem compromissos narrativos mínimos e acabam por reforçar o efeito dos segmentos mais movimentados (como poderia dizer Li Mu Bai, “sem contenção não há acção”).
A definição das personagens é essencial às artes marciais. A personalidade e a formação/treino nas artes definem o modo como cada guerreiro luta. Shu Lien está mais presa à terra (e à memória do noivo), sendo tal notório na cena da perseguição ao ladrão da Destino Verde. Jen, pelo contrário, não tem nada que a prenda, estando disposta a abandonar tudo e (provavelmente) todos, daí a sua maior leveza. Os combates em si funcionam como um libertar de frustrações. No fundo, é como se estivéssemos perante um convencional drama de época, com os conflitos familiares, rupturas de relações, gritos e lágrimas, substituídos por artes marciais

Este género não é familiar a grande parte do público ocidental. “Wuxia” significa literalmente “guerreiro” ou “cavaleiro errante” e está para a China como o western pode estar para os EUA. A acção do wuxia passa-se num passado mítico, uma espécie de realidade alternativa, onde os praticantes de artes marciais podem atingir capacidades sobre-humanas. A canalização da energia interna (qi), em consonância com elementos naturais (água, vegetação, etc.) permitem-lhes executar “saltos sem peso”, com maior ou menor graciosidade.

Em seguida posto meu comentário.

sábado, 15 de março de 2008